A série "Interlúdio" continua o estudo da piscina como "forma de dar forma" a um mar revolto. Explorando a fantasia da piscina oceânica, o artista questiona o lugar construído que cinta o mar, pintando sobre a água, que ali fica contida, e aguardando que a adrenalina do splash a devolva ao seu ciclo natural. "Interlúdio" quer ser uma pausa demorada, e mais do que um intervalo, assume-se como um intermezzo entre o fim da terra e o início do mar - o espaço entre, onde se implanta a piscina.
Martîm é natural da ilha da Madeira, talvez por isso o território insular se manifeste em permanência no seu corpo de trabalho. A densidade do oceano Atlântico, a paisagem subtropical da ilha, as memórias de infância ou a herança religiosa são temas recorrentes nas suas pinturas, como também nas diferentes incursões pela cerâmica e cenografia. Neste conjunto de novas pinturas apresentadas na Galeria Branca do AMAC, funde-se a reminiscência de uma infância junto ao mar com o Atlântico, relacionando-se o abrandamento da
rotina com o lânguido momento de ir a banhos. O convite é claro: mergulhar na aveludada textura da água, numa ainda quente tarde de setembro, expondo-nos a uma memória nostálgica de longas estadias ancoradas entre a escarpa e a linha de costa, sobranceiras ao mar.
- Frederico Vicente, setembro de 2024.